segunda-feira, 8 de maio de 2017

Regência verbal



Você sabe o que significa as expressão  “regência verbal”? Falando de forma bem simples, a regência nada mais é do que a relação entre o verbo e seus complementos . Em outras palavras, a regência ocorre quando uma palavra precisa de outra para completar-lhe o sentido.
Vamos entender melhor, analisando  dois exemplos.
    -      Nós amamos crianças.
    -      Nós gostamos de crianças.
O que você pode observar, comparando os dois exemplos? Embora os dois verbos possuam o mesmo sentido, o verbo amar  rege (“exige”) um complemento sem o acompanhamento da preposição, ou seja, trata-se de um verbo transitivo direto (sem nenhum elemento intermediário). Quem ama, ama algo ou alguém e ponto.
Já no segundo exemplo,  o verbo gostar rege, ou “exige” um complemento acompanhado de preposição, ou seja, trata-se de um verbo transitivo indireto (porque possui uma preposição no complemento). Para conferir, usamos a clássica fórmula: “quem gosta, gosta de algo ou de alguém.  
Outra informação importante é que os verbos “amamos”  e “gostamos”,  são denominados de termos regentes, enquanto que os respectivos complementos  “crianças” e “de crianças”, denominam-se termos regidos.
O Professor Ernani Terra, no livro Curso Prático de Gramática, afirma que alguns verbos, em razão do uso popular em desacordo com a normal culta, apresentam “problemas de regência”. Outras gramáticas também trazem verbos “problemáticos” e eu farei a compilação para vocês, obviamente preservando os direitos autorais desses autores.
Agora preste bastante atenção à regência correta dos verbos abaixo.

Verbos utilizados popularmente em desacordo com a norma padrão

Chegar – exige a preposição a e não a preposição em
Após longa viagem, finalmente chegamos a Piracaia.
Chegamos ao local combinado em poucos minutos.

O verbo ir segue a mesma regência do verbo chegar.
Todos nós iremos ao mesmo evento na próxima semana.
Elisa vai a Campinas toda quarta-feira.


Custar – no sentido de ser custoso, ser difícil, pede objeto indireto com a preposição a seguido de oração infinitiva.
Custou ao amigo aceitar o fato.
Custa a ela crer que ele tenha errado.


Implicar – no sentido de acarretar, pede complemento sem preposição.
A atitude daquele professor implicará advertência.
E não
A atitude daquele professor implicará em advertência.

Esse procedimento implicará a revolta da população.
E não
Esse procedimento implicará na revolta da população.


Morar – exige a preposição em.
Moro em São Paulo há anos.
Eles moram em Jundiaí desde o ano de 1990.

O verbo residir segue a mesma regência do verbo morar.
Ela reside em Minas Gerais e nunca saiu de lá.
Nunca residimos em Capivari, embora tenhamos desejado.

Nota:
Os nomes (ou substantivos) morador e residente também pedem a preposição em.
Pedro Paulo, morador na  Rua das Camélias.
Maria Amélia, residente na Rua 25 de Abril.


Namorar – exige complemento sem preposição.
Emiliano namora Clotilde.
E não
Emiliano namora com Clotilde.

Rita namora um garoto de sua turma.
E não
Rita namora com um garoto de sua turma.
  

Obedecer – exige complemento com a preposição a.
Os filhos deveriam obedecer aos pais.
Nem todos os cidadãos obedecem às leis.


Preferir – na norma padrão, exige um complemento sem preposição e um com a preposição a.  Portanto, dois complementos.
Prefiro doces a salgados
E não
Prefiro mais doces do que salgados.

Os alunos preferem Educação Física a Matemática
E não
Os alunos preferem mais Educação Física do que Matemática


Ser – o verbo ser não pede a preposição em.
Somos cinco irmãos, ou seja,  dois meninos e três meninas.
E não
Somos em cindo irmãos, ou seja, dois meninos e três meninas.

Na turma éramos vinte e oito.
E não
Na turma éramos em vinte e oito.


Simpatizar – exige a preposição com, mas não é pronominal.
O entrevistador simpatizou com a candidata.
E não
O entrevistador simpatizou-se com a candidata.

Simpatizei com aquela menina.
E não
Simpatizei-me com aquela menina.

Verbos com mais de uma regência

1-Aspirar – no sentido de inspirar, sorver , pede complemento sem preposição.
    Caminhar ao ar livre e aspirar o ar fez-lhe muito bem.
    Aspirava o aroma de pães assados com grande prazer.

2-Aspirar – pretender, almejar, ter como meta, requer complemento com a preposição a.
    O time aspirava ao título do campeonato daquele ano.
    Aspiro ao cargo de gerente na empresa em que trabalho.


1-Assistir – no sentido de presenciar, ver, exige a preposição a mais complemento.
 Acho que assisti a todos os episódios dessa série.
Você já assistiu a uma partida de polo aquático?

2-Assistir – no sentido de prestar assistência, ajudar, é utilizado de preferência com complemento sem preposição.
João, médico dedicadíssimo, assistia seus pacientes incansavelmente.
As mudanças na lei deverão assistir os trabalhadores rurais.

3-Assistir – no sentido de caber, pertencer, exige a preposição a.
Este direito assiste aos professores.
É um direito que  assiste a mim e meus familiares.

4-Assistir – no sentido de morar, residir, exige a preposição em (sentido bem pouco utilizado)
Todos os jogadores assistiam na mesma cidade desde a infância.
Luís assistia em Portugal quando se casou.
  

1-Chamar – no sentido de mandar vir, convocar, pede complemento sem preposição.
 A mãe chamou os dois filhos para uma conversa séria.
A Diretora chamou os pais de Isabel para a reunião.

2-Chamar – no sentido de dar nome, cognominar, pede indiferentemente complemento com ou sem a preposição a e predicativo (termo que se refere ao sujeito) com ou sem a preposição de. Dessa forma, admite quatro construções diferentes. Observe:
Chamei Nuno de curioso.
Chamei a Nuno de curioso.
Chamei Nuno curioso.
Chamei a Nuno curioso.

Temos, ainda, substituindo-se o substantivo pelo pronome:
Chamei-o de curioso.
Chamei-lhe de curioso.
Chamei-o curioso.
Chamei-lhe curioso.


1-Esquecer/lembrar – quando não são pronominais, pedem complemento sem preposição.
Esqueci a bolsa sobre a mesa da sala.
Não lembro tudo o que já li até hoje.

2-Esquecer/lembrar – quando são pronominais, exigem complemento com a preposição de.
Esqueci-me da bolsa sobre a mesa da sala.
Não me lembro de tudo o que já li até hoje.


Informar – pede dois complementos, um sem e outro com preposição, admitindo duas construções.
João informou o valor do título ao bancário.
Ou
João informou ao bancário o valor do título

Nota
Os verbos avisar, prevenir, cientificar, certificar, notificar seguem a mesma regência do verbo informar. Isso porque quem previne, cientifica, notifica, avisa, informa algo, o faz a alguém. Logo, todos esses verbos requerem  dois complementos, um com preposição e outro sem.


Pagar/perdoar – esses dois verbos, quando têm por complemento uma palavra que denote coisa, não requer preposição. Entretanto, quando ter por complemento uma palavra que denote pessoa, exige a preposição a.
Pagamos as contas sempre em dia.
Não pagarei o livro até que receba dos correios.
A mulher perdoou ao marido pela ducentésima vez.
Embora tenha ficado muito magoada, perdoei ao meu irmão.


1-Precisar – no sentido de ter necessidade, exigem complemento com a preposição de.
Todos nos precisamos de compreensão e paciência.
As crianças do educandário precisam de cuidados e muita atenção.

2-Precisar – no sentido de indicar com precisão, com exatidão, exige complemento sem preposição.
O arqueólogo precisou o local onde estava a caverna.


1-Proceder – no sentido de ter fundamento, não requer complemento.
Sua informação procede, por isso farei a retificação.
Os fatos que circulam no WhatsApp sobre o acontecido não procedem.

2-Proceder – no sentido de ter procedência, originar-se, vir de algum lugar, exige a preposição de.
O voo procede de Paris.
Todas as calúnias procedem da hipocrisia.

3-Proceder – no sentido de fazer, executar, exige a preposição a.
Procederemos a um relatório, assim que terminar a visita.
Assim que finalizarem as obras, os engenheiros procederão à vistoria.


1-Querer  - no sentido de desejar, exige complemento sem preposição.
Quero um prazo para pensar sobre a proposta que me apresentaram.
Queremos um carro que atenda nossas necessidades.

2-Querer – no sentido de estimar, ter afeto, exige um complemento com a preposição a.
Quero a meus amigos.
Queremos a eles como nossos filhos.


1-Visar – no sentido de mirar, exige complemento sem preposição.
O atirador visou o alvo, atirou, mas errou.
O caçador visou a caça, mas desistiu de atirar.

2-Visar – no sentido de ter em vista, exige complemento com a preposição a.
Todos nos visamos a ter melhor qualidade de vida.
Este trabalho visa a explorar as condições de vida das crianças refugiadas.

3-Visar – no sentido de dar o visto, pede complemento sem preposição.
O policial federal visou meu passaporte assim que conferiu os dados.
Visamos todos os documentos antes de enviá-los.


 Fontes bibliográficas

MESQUITA, Roberto Melo e MARTOS, Cloder Rivas. Gramática Pedagógica. 13ª ed. São Paulo,
Saraiva, 1986.

TERRA, Ernani. Curso prático de gramática. São Paulo, Scipione, 1986.





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